A história do Psica: o festival de dois irmãos da periferia que chegou ao Mangueirão e virou patrimônio de Belém
O Psica é o festival de música de Belém que o diretor Jeft Dias define como “preto, amazônico e periférico”. Nasceu em 2012 com outro nome e para 300 pessoas, levou o Sepultura a um clube náutico da cidade, recebeu o último show de Elza Soares e, em 2025, juntou 110 mil pessoas em três dias, entre a Cidade Velha e o Mangueirão. Virou patrimônio cultural de Belém e volta de 11 a 13 de dezembro de 2026, com o primeiro dia de graça no centro histórico.

Em resumo
Os irmãos Jeft e Gerson Dias, filhos de um vendedor de CDs de aparelhagem da periferia de Belém, criaram o festival em 2012.
O festival nasceu com o nome Mongoloid Festival, para cerca de 300 pessoas, e passou a se chamar Psica em 2017.
Em 22 de dezembro de 2019, o Sepultura tocou no Psica, no Espaço Náutico Marine Club, na mesma noite de Djonga, Luedji Luna e Krisiun.
Elza Soares fez no Psica, em 19 de dezembro de 2021, em Belém, o último show da carreira.
A edição de 2023, de 15 a 17 de dezembro, levou o festival ao Mangueirão, com Jorge Ben Jor e o encontro inédito de Alcione e MC Tha.
A edição de 2025 reuniu 110 mil pessoas em três dias, a maior da história do festival.
A Câmara Municipal de Belém aprovou por unanimidade, em 3 de dezembro de 2025, o projeto que declara o Psica Patrimônio Cultural Imaterial do município.
A edição de 2026 é de 11 a 13 de dezembro, com abertura gratuita na Cidade Velha, o centro histórico de Belém, e dois dias no Mangueirão.
Revisado em 3 de outubro de 2026.
Dos CDs na feira ao festival Mongoloide (2008–2017)
A história começa numa feira. Jeft e Gerson Dias são filhos de um vendedor de CDs de aparelhagem da periferia de Belém e descobriram a vocação na feira da Cidade Nova 4, onde o pai vendia CDs e DVDs. O pai era camelô, “queimava” CDs piratas para vender e levava os meninos para ajudar nas feiras. Os dois são crias de Ananindeua, a cidade-dormitório de Belém, e cresceram ouvindo brega, carimbó e indie rock. “Nos vemos como o público do nosso festival: sabemos o que as pessoas querem porque somos periféricos como elas”, disse Gerson ao Projeto Draft.
As primeiras festas não davam público. Entre 2008 e 2009, os irmãos organizavam noites para cerca de 5 a 10 pessoas, quase todas da família e de amigos. Em 2011, circulava no Orkut o cartaz de uma festa chamada Dance Like Hell, com ingresso a R$ 8. Em 2012, nasceu o Festival Mongoloide. A primeira edição teve 300 pessoas, numa casa de shows que cabia 600.
O nome era um tributo a um single de 1977 do Devo, a banda new wave americana que os irmãos curtiam. Em abril de 2014, um Mongoloid Festival no Red Pub, em Belém, juntava as paraenses Molho Negro, Vjölenza e Manduca na Roça a bandas do Paraná, de São Paulo e do Espírito Santo, a R$ 25 o ingresso antecipado. Em 2015, os irmãos conseguiram pôr no cartaz Nelsinho Rodrigues, um som que eles conheciam bem. Em 2016, fizeram o embrião do Motins, o circuito de formação do festival.

Com o tempo, o nome começou a incomodar. “Em 2016 a galera pouco falava de capacitismo, e o festival estava com, sei lá, 4 mil pessoas, isso era muita gente…”, lembrou Gerson. A troca veio em 2017, segundo o Portal Amazônia. “Queríamos algo que tivesse a ver com a gente, mas que não fosse tão óbvio. Escolhemos ‘Psica’ porque tem a ver com cultura amazônica”, conta a linha do tempo do festival. Na gíria amazônica, psica quer dizer algo como “catiça”, o azar que se joga no adversário em jogos como o de bola de gude. Segundo o Projeto Draft, o nome novo abriu as portas para os grandes patrocinadores, que chegaram por renúncia fiscal.
Psica, enfim: de Ratos de Porão ao Sepultura (2018–2019)
Com o nome novo, o festival de 2018 ocupou o Núcleo de Conexões Ná Figueredo e o Insano Marina Club, em 21 e 22 de dezembro. Foram cinco bandas nacionais e 13 regionais, com Ratos de Porão, Duda Beat, Xeiro Verde e As Mercenárias, e ingressos de R$ 20 a R$ 50.
Em 2019, a bilheteria melhorou, e veio “a realização de um sonho no palco: Sepultura”. A programação começou de graça, em 19 e 20 de dezembro, com palestras, bate-papos e mostras de cinema. No sábado, 21, o Curro Velho recebeu MC Tha e o DJ Zek Picoteiro. No domingo, 22, o Espaço Náutico Marine Club juntou o metal do Sepultura e do Krisiun a Djonga, Luedji Luna, Jaloo, Viviane Batidão e o DJ Waldo Squash. O ingresso do domingo custava R$ 50.

A pandemia e a última noite de Elza Soares (2020–2022)
Em 2020, com a pandemia, o Psica foi em formato “drops”, em casa. No ano seguinte, o Psica aprovou e executou 33 projetos em editais. A 9ª edição marcou a volta dos festivais a Belém, de 14 a 19 de dezembro de 2021, com mais de 40 shows. Teve programação gratuita no Píer das Onze Janelas e no Insano Marina Club, e os dois últimos dias no estacionamento do Shopping Bosque Grão-Pará. No cartaz estavam Elza Soares e Renegado, Chico César, Karol Conká, Black Alien, Marina Sena, Potyguara Bardo, o Arraial do Pavulagem e a aparelhagem Gigante Crocodilo Prime.
A noite que ficou foi a de 19 de dezembro. Elza Soares subiu ao palco do Psica, e o festival publicou o vídeo de um show que reuniu milhares de fãs. “Belém do Pará, que noite maravilhosa, que show, que energia”, celebrou a cantora. Elza morreu em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos. O show de Belém foi o último da carreira dela.

Em 2022, o Psica fez dez anos. A 10ª edição foi de 16 a 18 de dezembro, no Espaço Náutico Marine Club, no Guamá: quatro palcos, mais de 20 mil m² e 40 apresentações, com Daniela Mercury, Baco Exu do Blues, Liniker, Gaby Amarantos, Luedji Luna, Flora Matos, Urias e Lia de Itamaracá. “O Festival Psica, como um festival preto, amazônico e periférico, procura dar visibilidade para artistas com esse mesmo perfil”, disse Jeft Dias.
A festa saiu cara. Sem patrocínio, os irmãos arcaram com os custos e pagaram um preço alto: 1,2 milhão de reais, conta a linha do tempo do festival. O Projeto Draft fala numa dívida de cerca de 1 milhão de reais, criada no fim da Covid pela fuga de financiadores e quitada com os credores em parcelas “a perder de vista”.
No gramado do Mangueirão (2023–2024)
A brincadeira virou verdade em 2023. “A gente fazia brincadeira quando um evento dava muito certo: ‘ano que vem vai ter que ser no Mangueirão’. E dessa vez será de fato”, disse o DJ Zek Picoteiro quando saiu o cartaz, com mais de 60 atrações. Foi a primeira edição patrocinada pela Lei Rouanet. A 11ª edição abriu de graça na Cidade Velha, em 15 de dezembro, e seguiu nos dias 16 e 17 no Mangueirão, o Estádio Olímpico do Pará.

No estádio, Jorge Ben Jor dividiu o cartaz com um encontro inédito: Alcione e MC Tha, que tinha acabado de lançar um disco com releituras dos sucessos da cantora maranhense. Viviane Batidão recebeu Gaby Amarantos, e quatro aparelhagens tocaram: Mega Príncipe Negro, Rubi, Tudão Crocodilo e Búfalo do Marajó. Somando o dia gratuito e os pagos, 65 mil pessoas passaram pelo festival.


Em 2024, o tema foi o Psica Dourado, inspirado na dourada, o peixe que migra mais de 11 mil quilômetros pela Amazônia. A sexta, 13 de dezembro, teve cinco palcos de graça na Cidade Velha, com Rossy War, Djuena Tikuna e Trio Manari, os bois de Parintins e a aparelhagem Carabao. No Mangueirão, o sábado teve Pabllo Vittar, BaianaSystem, Viviane Batidão com Zaynara, Banda Black Rio e Super Pop. O domingo teve Fafá de Belém, Liniker, João Gomes com Don L, The Skatalites e a aparelhagem Crocodilo. “Estamos entregando um festival da Pan-Amazônia”, disse Jeft.
A edição bateu recorde, com mais de 100 mil pessoas em três noites. O Diário do Pará contou ainda cerca de 800 empregos diretos e 1.078 ingressos gratuitos para pessoas trans.
Aparelhagem, brega e carimbó no centro do Psica
A aparelhagem estava na vida dos irmãos antes do festival: era o CD que o pai vendia na feira. Hoje, a curadoria reserva ao menos metade de cada palco para artistas do território, em horários de destaque. Em 2025, um dos quatro palcos simultâneos era só de aparelhagem. Rubi e Tudão Crocodilo tocaram em 2023, e Carabao e Crocodilo, em 2024.
O brega e o tecnomelody também têm casa ali. Viviane Batidão, a principal representante do tecnomelody, passou pelo festival em 2019, 2023, 2024 e 2025. Wanderley Andrade, o “Rei do Brega”, com 40 anos de história, deixou o palco em 2025, escalou o gradil e subiu num banheiro químico no meio do público. O DJ Waldo Squash tocou em 2019, e a Gang do Eletro estava no cartaz de 2023.


E tem as raízes. O Arraial do Pavulagem tocou em 2021, as Suraras do Tapajós, em 2023, e Dona Onete, lenda do carimbó, foi a homenageada de 2025. Para 2026, a abertura gratuita promete tecnobrega, carimbó e reggae na rua. O que não entra é o sertanejo. “Deixamos de fora só algo que divirja muito da nossa ideologia primordial. É o caso do sertanejo”, explica Gerson.
A maior edição e o título de patrimônio (2025)
Em 2025, o tema foi “O Retorno da Dourada”, e a abertura, o Cortejo Encantado, com cerca de 200 artistas. Na sexta, 12 de dezembro, 70 mil pessoas, pela conta da Polícia Militar, ocuparam a Cidade Velha, com seis palcos espalhados pelo centro histórico. A noite terminou na Praça do Relógio, no Ver-o-Peso, ao som da aparelhagem Carabao, “fenômeno do Marajó”.
No Mangueirão vieram Mano Brown, Marina Sena, Nação Zumbi, Martinho da Vila e Urias, entre mais de 70 atrações. Dona Onete, aos 86 anos, fechou o domingo com “Quatro Contas”, um show com mais de 20 artistas. “É o show dos meus sonhos”, disse ela.

Foi a maior edição da história do festival: 110 mil pessoas em três dias, com vendas 25% acima das de 2024. A POPline registrou um crescimento de 24%. “Esse crescimento vem de uma proposta muito honesta”, disse Jeft.
Dias antes do festival, em 3 de dezembro de 2025, a Câmara Municipal de Belém aprovou por unanimidade o projeto da vereadora Marinor Brito (PSOL) que declara o Psica Patrimônio Cultural Imaterial do município. O certificado foi entregue numa sessão solene, em 26 de agosto de 2026. “Esse título reconhece um trabalho construído ao longo de mais de uma década, não apenas por mim e pelo meu irmão, mas por todas as pessoas que fazem o Psica acontecer”, disse Jeft. O projeto também virou o Instituto Psica e ganhou a primeira sede permanente, a Casa Dourada.

O Psica de 2026: o que já se sabe — e o que ainda não
A edição de 2026 é de 11 a 13 de dezembro, e a Rolling Stone a chama de 14ª. As datas saíram em abril, com antecedência: 46% do público de 2025 veio de fora de Belém. “Tem muita gente de fora que espera esse momento para organizar viagem, passagem, hospedagem”, explicou Jeft. O tema é “Nosso Tempo é o Norte”.
A sexta, 11 de dezembro, abre de graça na Cidade Velha, com o Cortejo Encantado, Nazaré Pereira convidando Lia de Itamaracá, o Baile do Mestre Cupijó com Eloi Iglesias, Raízes Latinas com Mestre Curica e Mestre Solano, Ave Sangria, Rachel Reis, o Coletivo Cabanus, a aparelhagem Icônico Tupinambá e a Radiola Black Star. “O primeiro dia gratuito é quando a gente ocupa a rua com cultura popular, cultura periférica”, disse Gerson.
No Mangueirão, em 12 e 13 de dezembro, o cartaz tem Zeca Pagodinho e Alceu Valença, Gaby Amarantos, Criolo, Marcelo D2, Fresno, Don L, Mateus Aleluia e o Ratos de Porão, que já tinha tocado em 2018. Também tem encontros, como o de Pinduca com Eliana Pittman e o dos bois Caprichoso e Garantido, e a volta d’Os Amantes, trio de Jaloo, Léo Chermont e Arthur Kunz, depois de dois anos parado. O segundo lote vai de R$ 160 a meia a R$ 320 a inteira, na Shotgun.


Antes de dezembro, o festival ganhou uma edição de verão. Em 17 e 18 de julho de 2026, o Psica no Verão Amazônico levou de graça à praia de Joanes, em Salvaterra, no Marajó, Duda Beat, Mombojó, Tribo de Jah e Mestre Zezinho Viana, para 15 mil pessoas. A POPline tratou o show como a estreia de Duda Beat no Psica, mas o anúncio da edição de 2018 já trazia o nome dela.
O que ainda não se sabe, até 2 de outubro de 2026: como as atrações do Mangueirão se dividem entre o sábado e o domingo, os horários e a expectativa de público. Também não se sabe se o Verão Amazônico volta em 2027. Nem a conta das edições é unânime. A Terra chamou a de 2023 de 11ª, e a Rolling Stone chama a de 2026 de 14ª. Já O Liberal chamou a de 2024 de 13ª, e o Portal Guarany Júnior, a de 2025 de 14ª.
| Edição | Ano | Datas | Onde | Destaques |
|---|---|---|---|---|
| Mongoloide | 2012 | — | uma casa de shows de Belém, para até 600 pessoas | nasce o festival, com 300 pessoas |
| Mongoloid Festival | 2014 | 4/abr | Red Pub | Molho Negro, Vjölenza, Manduca na Roça, Mullet Monster Mafia (SP) |
| Mongoloide | 2015 | — | — | Nelsinho Rodrigues no cartaz |
| — | 2018 | 21 e 22/dez | Núcleo de Conexões Ná Figueredo e Insano Marina Club | Ratos de Porão, Duda Beat, Xeiro Verde, As Mercenárias; 5 bandas nacionais e 13 regionais |
| — | 2019 | 19 a 22/dez | Curro Velho e Espaço Náutico Marine Club | Sepultura, Djonga, Luedji Luna, Jaloo, Viviane Batidão, Krisiun, MC Tha |
| — | 2020 | — | em casa | formato drops, na pandemia |
| 9ª | 2021 | 14 a 19/dez | Píer das Onze Janelas, Insano Marina Club e Shopping Bosque Grão-Pará | Elza Soares e Renegado, Chico César, Karol Conká, Black Alien, Marina Sena, Gigante Crocodilo Prime |
| 10ª | 2022 | 16 a 18/dez | Espaço Náutico Marine Club | 10 anos: Daniela Mercury, Baco Exu do Blues, Liniker, Gaby Amarantos, Urias, Lia de Itamaracá |
| 11ª | 2023 | 15 a 17/dez | Cidade Velha e Mangueirão | Jorge Ben Jor, Alcione e MC Tha, Viviane Batidão e Gaby Amarantos; 65 mil pessoas |
| 13ª (segundo O Liberal) | 2024 | 13 a 15/dez | Cidade Velha e Mangueirão | Psica Dourado: Pabllo Vittar, BaianaSystem, Liniker, Fafá de Belém, João Gomes e Don L; mais de 100 mil pessoas |
| 13ª ou 14ª | 2025 | 12 a 14/dez | Cidade Velha e Mangueirão | O Retorno da Dourada: Dona Onete, Mano Brown, Nação Zumbi, Marina Sena, Wanderley Andrade; 110 mil pessoas |
| — | 2026 | 17 e 18/jul | Praia de Joanes, Salvaterra (Marajó) | Psica no Verão Amazônico, de graça: Duda Beat, Mombojó, Tribo de Jah; 15 mil pessoas |
| 14ª | 2026 | 11 a 13/dez | Cidade Velha e Mangueirão | Nosso Tempo é o Norte: Zeca Pagodinho, Alceu Valença, Gaby Amarantos, Criolo, Pinduca e Eliana Pittman |
A conta tem lacunas. Dos anos em que o festival se chamava Mongoloide, de 2012 a 2017, sobrou pouco além da memória dos criadores, e de 2013, 2016 e 2017 não há cartaz conhecido. E a numeração das edições tem duas versões na imprensa: uma põe a de 2025 como 13ª, a outra, como 14ª.
Perguntas frequentes
Quem criou o Psica?
O que quer dizer “Psica”?
Onde acontece o Psica?
Quando é o Psica 2026?
O Psica é patrimônio de Belém?
A agenda do Psica e o que vier da edição de dezembro estão no perfil do festival no TocaOnde.
Antes de fechar
Veja quem está tocando de verdade.
A agenda é pública, e cada show aponta a banda e a casa. Dá pra ouvir e ver o estilo antes de puxar conversa.
