A história do Festival DoSol: do bar Blackout à Rua Chile, a vitrine da música potiguar
O Festival DoSol começou num bar chamado Blackout, com as bandas do selo de Anderson Foca e Ana Morena, e cresceu junto com a casa que o DoSol manteve na Rua Chile, no bairro da Ribeira, em Natal. Recebeu Marky Ramone, foi para a praia, sobreviveu à pandemia pelo YouTube e voltou para a rua. Hoje é Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio Grande do Norte e chega à 23ª edição, em 2026, com 115 shows espalhados por 11 cidades potiguares — o que Ana Morena chama de “a principal vitrine da música potiguar”.

Em resumo
Anderson Foca conta que a primeira edição do Festival DoSol foi em 2002, num bar chamado Blackout, em Natal (RN).
Em 2005, o Festival DoSol foi para a rua e ocupou o largo da Rua Chile, na Ribeira.
A casa do DoSol na Rua Chile funcionou de 2004 a 2019; a Sede Cultural DoSol foi aberta oficialmente em 2022.
Marky Ramone, ex-baterista dos Ramones, fechou a noite de domingo do Festival DoSol de 2010 com a banda Blitzkrieg.
Em 2018, cerca de 6 mil pessoas foram ao Festival DoSol no Beach Club, na Via Costeira, para ver 57 atrações.
Em 2020, por causa da pandemia, o festival foi online: o DoSol Online foi ao ar no YouTube em 20, 21 e 22 de novembro, gravado sem público na Casa da Ribeira.
O Festival DoSol é Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio Grande do Norte pela Lei nº 12.075, de 7 de fevereiro de 2025.
A 23ª edição, em 2026, tem 115 shows entre 5 de novembro e 12 de dezembro, em Natal e mais dez cidades do RN, com o fim de semana principal na Rua Chile em 27 e 28 de novembro.
Revisado em 1 de outubro de 2026.
A origem: um selo, um bar e oito artistas (2001–2002)
Antes de ser festival, o DoSol foi selo. “Em 2001, éramos um selo”, resume Anderson Foca, que toca o projeto com Ana Morena. Foca tinha largado a faculdade de Ciências Contábeis “já perto do fim” e decidido que “não faria mais outra coisa”.
O festival veio em seguida. “Fizemos a primeira edição do Festival em 2002 num bar chamado Blackout”, contou Foca em 2008. No palco, só bandas do selo. Num texto de 2018, ele lembra o clima: “uma casa com dois palcos e oito artistas em ação numa tentativa de ficar vivo já naqueles tempos”. O tamanho da plateia muda conforme a lembrança: nesse texto, foram “quase 800 pessoas”; ao Saiba Mais, no mesmo ano, “umas 200 pessoas no máximo”.
O ano de nascimento tem mais de uma versão. Foca diz 2002. A Tribuna do Norte diz 2003 — e a própria organização comemorou 20 anos em 2023. Já a cobertura da lei que fez do festival patrimônio fala em 2001. Quem faz 25 anos em 2026 é o Combo Cultural DoSol — selo, sede cultural e incubadora —, e o festival é uma parte dele.
A casa e a rua: a Rua Chile (2004–2010)
Festival e casa são coisas diferentes, mas cresceram juntos. A casa do DoSol ocupou o tradicional prédio da Rua Chile que ficou aberto por 15 anos, de 2004 a 2019. Foi ela que empurrou o festival para fora: “Em 2005 conseguimos finalmente botá-lo na rua como desejávamos muito em função do DoSolRockBar ter crescido e virado ponto referencial da cena roqueira de Natal”, contou Foca. Naquele ano, o DoSol fez “nossa grande edição ocupando o largo da rua Chile”.

Nem sempre foi festa. Em 2007, o festival perdeu o patrocínio, “mas não a fé em fazer o rock”: levou para a rua sua maior edição até ali, com 46 bandas e mais 20 na prévia, e fechou a conta com um prejuízo de quase trinta mil reais. No ano seguinte, a edição foi garantida por um edital da Oi Futuro.
O grande sonho de Foca tinha nome: um Ramone em Natal. Ele perseguia a ideia desde 2005. Em 2006, o DoSol chegou a fechar com Marky Ramone, “mas infelizmente não conseguimos bater o martelo 100% do projeto e a data de Natal rumou para Curitiba”. Em 2010, deu certo. O festival alternou os palcos do espaço DoSol e do Armazém Hall, “deixando a rua entre os dois para livre circulação do público” — juntas, as duas casas cabiam mil pessoas. Vieram The Tormentos e Falsos Conejos, da Argentina, e Humana, do Chile. E o Marky Ramone's Blitzkrieg fechou a noite de domingo, por volta das 21h30.

Em 2013, o DoSol publicou o registro do show — 32 músicas, de clássicos dos Ramones a Misfits acústico — e o chamou de “um dos maiores momentos do Festival Dosol em todos os tempos”.
Da Ribeira à praia, e de volta (2016–2019)
Manter uma casa na Ribeira nunca foi simples. “É uma batalha diária ter um espaço na Ribeira, e uma prova de resistência cultural/respeito com a história da cidade”, disse Foca ao Novo Jornal, às vésperas de uma edição com mais de 70 shows na Rua Chile. Na mesma conversa, contou o sonho seguinte: “Temos um sonho de fazer o dosol na praia, de dia”. E garantiu: “a ribeira continuará sendo a principal incubadora do dosol e dos artistas da cidade”.
O sonho virou endereço. Em 2018, Foca contou que as “duas últimas edições” tinham sido na Via Costeira, “por uma questão logística, tamanho de boca de cena, espaço”. Naquele ano, cerca de 6 mil pessoas foram ao Beach Club ver 57 atrações no fim de semana — quase 100 bandas, contando aquecimentos e side shows. Foca saiu de lá com uma frase: “Foi o melhor momento artístico da nossa história.”

Aquela foi a 15ª edição, e o DoSol a comemorou com um mês inteiro de programação, “da praia à Ribeira”. No mesmo texto, Foca fez o balanço: o festival já tinha tido “quase 30.000 pessoas numa edição” e já tinha feito edições que visitaram 13 cidades do Nordeste.
A 16ª edição, em 23 e 24 de novembro de 2019, voltou ao Beach Club, com quatro palcos, o norueguês Paal Nilssen-Love tocando com Kiko Dinucci e a primeira Batalha DoSol de MCs. Naquele mesmo ano, a casa fechou: o Centro Cultural Dosol encerrou as atividades em março. Na Rua Chile, a saída do festival pesou — “o público caiu muito desde a ida do Festival Dosol para a Via Costeira”, avaliou o empresário Johab Madruga.
A pandemia e a volta (2020–2022)
Em 2020, o DoSol foi para a internet. Primeiro com o Festival DoSol Sessions, 32 dias de lives e sessões com artistas potiguares, de 5 de maio a 5 de junho. Depois com o DoSol Online, no YouTube, em 20, 21 e 22 de novembro, gravado quase todo na Casa da Ribeira, sem público. Ana Morena explicou por que não houve palco com gente: “O festival tem uma característica forte de misturar público, artistas, equipe. E fazer uma versão do evento que não atentasse para isso é ir contra o próprio DNA.”
A volta ao presencial veio entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, com 35 atrações e a comemoração de 20 anos de atuação. Teve aquecimento na Casa da Ribeira, shows no YouTube — entre eles, o primeiro show do grupo Retrovisor em 15 anos — e três sábados de Jardim DoSol no pátio da Capitania das Artes, com ingressos esgotados. A única atração de fora do Nordeste era Marina Sena.
Em novembro de 2022, a 19ª edição se espalhou pela cidade: Arena das Dunas, calçadão de Ponta Negra, Centro Histórico e Zona Norte. “Espalhar a programação do Festival DoSol pela cidade de forma gratuita é um sonho realizado”, disse Foca. No sábado, 26, a Arena das Dunas recebeu 32 artistas em mais de 13 horas de programação, com João Donato, Pato Fu e BK. Na mesma programação estavam Cátia de França, Far From Alaska e Potyguara Bardo — para a revista O Inimigo, uma edição em que o festival “se coloca no centro da nova música brasileira”. No mesmo ano, o DoSol ganhou casa nova: a Sede Cultural DoSol foi oficialmente aberta em 2022, num evento puxado pelo grupo paulista Hateen.


Vinte edições, a volta à Rua Chile e o título de patrimônio (2023–2025)
A 20ª edição, de 4 a 26 de novembro de 2023, teve 80 artistas em 20 dias, com bandas da França, da Itália e da Noruega, e espalhou palcos pela Funcarte, pela Pinacoteca, pelo Largo da Rua Chile e pela Sede Cultural DoSol. Pela incubadora do DoSol, o festival financiou produções de cinco nomes da cena local: Gracinha, Ale Du Black, Jennifer C., Sarah Oliver e Sourebel. “A centelha do trabalho do DoSol é o desenvolvimento da música potiguar”, disse Ana Morena.
Em 2024, a 21ª edição voltou ao Largo da Rua Chile. Em 30 de novembro, cinco palcos tocaram ao mesmo tempo, com 32 apresentações e 4 mil lugares — entre elas Ave Sangria, Mombojó, Black Pantera, Joyce Alane e a potiguar Gracinha. Um dos palcos, no Galpão 292, se chamou Palco Blackout: o nome do bar onde tudo começou. “Pra gente, significa muito estar na Ribeira”, disse Foca. Ana Morena completou: “É sempre desafiador colocar o Festival DoSol na rua, mas também é sempre uma imensa alegria.”


Em fevereiro de 2025, veio o reconhecimento: a Lei nº 12.075, de 7 de fevereiro de 2025, fez do Festival DoSol Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio Grande do Norte. A proposta foi da deputada estadual Isolda Dantas, passou por unanimidade na Assembleia Legislativa e foi sancionada pela governadora Fátima Bezerra. Pelo palco do festival já tinham passado mais de 2 mil artistas. “Receber um título de Patrimônio Cultural do estado é surreal”, disse Ana Morena. Foca falou de memória: “o principal legado de um festival de música e cultura como o DoSol é o legado afetivo e de memória que o público vai acumulando ano após ano”.
A 22ª edição, de 13 a 29 de novembro de 2025, levou mais de 80 apresentações de 73 artistas a cinco cidades: Natal, Caicó, Currais Novos, Assu e Mossoró. Em Natal, o fim de semana final ocupou o Centro Histórico, com palcos no Largo da Rua Chile, no Galpão 292, no Armazém Ribeira e no Frisson. Vieram Terno Rei, Tuyo, Rancore, Mukeka di Rato e Felipe Cordeiro — e, de fora do país, os portugueses do Linda Martini e os sul-coreanos do Octopoulpe.


A 23ª edição, em 2026: o que já se sabe — e o que ainda não
A 23ª edição vai de 5 de novembro a 12 de dezembro de 2026, em 18 datas, com 115 shows em Natal, Mossoró, Pipa, Caicó, Currais Novos, Santa Cruz, Assú, Parnamirim, São Gonçalo, Pau dos Ferros e Macaíba — as duas últimas estreiam no festival. O interior vai até 22 de novembro. O fim de semana principal é na Rua Chile, em 27 e 28 de novembro, com cinco palcos simultâneos, e o encerramento é em 12 de dezembro, na Rampa Cultural. Tudo de graça, com uma exceção: a noite de metal de 19 de novembro, no Galpão 292, com o Krisiun.
A grade de Natal já saiu, dividida por dia e por palco. Na sexta, 27, a partir das 19h, tocam Ego Kill Talent e MC Taya, entre outros. No sábado, 28, a partir das 16h, o palco da Rua Chile recebe Siba, Maglore, Àttooxxá, Suraras do Tapajós, Khrystal e Taj Ma House; Vanguart e Maria Beraldo estão no palco do Ribeira Music; Mercenárias e Pense, no Galpão 292. O festival é financiado pelo Programa Cultural Câmara Cascudo, pelo Instituto Neoenergia e pelo Banco do Nordeste, via Lei Rouanet. Para Foca, ele segue sendo “um grande radar que aguça e amplia a nossa percepção sobre música e cultura”.

O que ainda não se sabe, até 1º de outubro de 2026: o horário de cada show dentro da grade — a programação oficial dá só a hora em que cada noite começa — e o preço do ingresso da noite de metal de 19 de novembro, que o DoSol promete divulgar “em breve”. Da história, também ficam perguntas sem resposta: qual edição reuniu as “quase 30.000 pessoas” de que Foca fala, e quais foram as edições que passaram por 13 cidades do Nordeste.
| Edição | Ano | Onde | Destaques |
|---|---|---|---|
| 1ª | 2002 (segundo Foca) | bar Blackout, Natal | só bandas do selo DoSol; dois palcos e oito artistas |
| — | 2005 | largo da Rua Chile, Ribeira | a primeira grande edição na rua |
| — | 2007 | na rua | 46 bandas e mais 20 na prévia; prejuízo de quase R$ 30 mil |
| — | 2010 | espaço DoSol e Armazém Hall, Ribeira; etapa em Pium (Parnamirim) | Marky Ramone's Blitzkrieg (EUA), The Tormentos e Falsos Conejos (Argentina), Humana (Chile) |
| 15ª | 2018 | Beach Club, Via Costeira | 57 atrações no fim de semana; cerca de 6 mil pessoas |
| 16ª | 2019 | Beach Club, Via Costeira | quatro palcos; Paal Nilssen-Love com Kiko Dinucci; 1ª Batalha DoSol de MCs |
| — | 2020 | online (YouTube), gravado na Casa da Ribeira | DoSol Sessions (32 dias) e DoSol Online, sem público |
| — | 2021–2022 | Casa da Ribeira, YouTube e Jardim DoSol (Capitania das Artes) | 35 atrações; 20 anos de atuação; Marina Sena; volta do Retrovisor |
| 19ª | 2022 | Arena das Dunas, Ponta Negra, Centro Histórico e Zona Norte | João Donato, Pato Fu e BK; cerca de 70 artistas |
| 20ª | 2023 | Funcarte, Pinacoteca, Largo da Rua Chile, Sede Cultural DoSol e outros | 80 artistas em 20 dias; bandas da França, Itália e Noruega |
| 21ª | 2024 | Largo da Rua Chile e Sede Cultural DoSol | Ave Sangria, Mombojó, Black Pantera; 32 apresentações em cinco palcos |
| 22ª | 2025 | Ribeira (Natal), Caicó, Currais Novos, Assu e Mossoró | Terno Rei, Linda Martini (Portugal), Octopoulpe (Coreia do Sul); mais de 80 shows |
| 23ª | 2026 | Rua Chile e mais dez cidades do RN | Siba, Maglore, Vanguart, Mercenárias, Krisiun; 115 shows |
As linhas sem número — 2005, 2007, 2010, 2020 e a temporada 2021–2022 — ficam assim porque nenhum registro diz qual edição era cada uma. O que aconteceu nelas está contado acima, nas palavras de quem fez.
Perguntas frequentes
Quando começou o Festival DoSol?
Quem criou o Festival DoSol?
Onde acontece o Festival DoSol?
Quando é o Festival DoSol 2026?
O Festival DoSol é patrimônio do Rio Grande do Norte?
A programação da 23ª edição está no perfil do Festival DoSol no TocaOnde.
Antes de fechar
Veja quem está tocando de verdade.
A agenda é pública, e cada show aponta a banda e a casa. Dá pra ouvir e ver o estilo antes de puxar conversa.
