A história do Coquetel Molotov: o festival do Recife que nasceu num programa de rádio
O No Ar Coquetel Molotov é um festival de música independente que acontece no Recife desde 2004. Antes de ser festival, era um programa de rádio. A primeira edição trouxe o Teenage Fanclub ao Teatro da UFPE; a 23ª acontece em 28 de novembro de 2026, no campus da mesma universidade. No caminho, o festival estreou o show solo de Marcelo Camelo, viu o público dos Racionais quebrar uma porta de vidro de tanta empolgação e foi aprovado pela Assembleia Legislativa como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco.

Em resumo
A primeira edição do No Ar Coquetel Molotov aconteceu em maio de 2004, no Teatro da UFPE, no Recife, com as bandas Teenage Fanclub (Escócia) e Hell on Wheels (Suécia).
O festival nasceu de um programa na Rádio Universitária AM e tem como fundadores Ana Garcia, Jarmeson de Lima e Viviane Menezes.
A edição de 2008 teve a primeira apresentação ao vivo do projeto solo de Marcelo Camelo em palcos brasileiros.
Em 2014, na 11ª edição, depois de dez edições em locais fechados, o festival passou a acontecer ao ar livre, na Coudelaria Souza Leão, na Várzea.
O Coquetel Molotov foi o primeiro festival do Brasil a fazer parte da iniciativa Keychange, que promove igualdade de gênero nos line-ups.
Em 2025, na 22ª edição, 32% do público veio de fora de Pernambuco.
Em 15 de outubro de 2025, a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco para o festival, proposto pela deputada Dani Portela.
A 23ª edição acontece em 28 de novembro de 2026, no campus da UFPE, no Recife, com mais de 25 atrações em três palcos.
Revisado em 1 de outubro de 2026.
Antes do festival, um programa de rádio (2000–2004)
O Coquetel Molotov começou no ar. Era um programa da Rádio Universitária AM, no Recife, que tocava artistas locais. O RecifeRock! registrou, em 2004, que ele começou em 2000; Ana Garcia, uma das criadoras, conta que foi em 2001. Pouco depois vieram um zine, uma revista impressa e vários shows.
Eram três: Ana Garcia, Jarmeson de Lima e Viviane Menezes. Em 6 de novembro de 2004, o programa reestreou na Universitária FM, aos sábados, com os três ao microfone e a banda Rádio de Outono como primeira convidada.
Maio de 2004: o Teenage Fanclub no Teatro da UFPE
O primeiro festival foi uma aposta alta para quem tinha um programa de rádio. Em maio de 2004, o grupo levou ao Teatro da UFPE duas bandas de fora: os suecos do Hell on Wheels e os escoceses do Teenage Fanclub. “Juntamos forças com outros produtores para trazer o Teenage Fanclub ao Brasil”, contou Ana Garcia anos depois. Em 2021, a revista O Grito! ainda lembrava do “distante ano de 2004”, quando “estávamos todos assistindo ao show do Teenage Fanclub no Teatro da UFPE”.

Os anos de teatro: indie de fora e cena de casa (2005–2013)
Nos anos seguintes, o festival pôs no mesmo palco nomes estrangeiros pouco vistos no Brasil e a cena nova do Recife. Em 2005, a primeira noite no Teatro da UFPE teve Mombojó — “um dos maiores expoentes da nova música produzida em Pernambuco”, escreveu o RecifeRock! — antes dos suecos do Dungen. Depois vieram CocoRosie, em 2006, e Nouvelle Vague, em 2007.
Em 2008, na quinta edição, o Coquetel recebeu a primeira apresentação ao vivo do projeto solo de Marcelo Camelo em palcos brasileiros. O vocalista dos Los Hermanos veio com músicos do Hurtmold e o instrumentista Rob Mazurek. No mesmo cartaz estavam Mallu Magalhães, Vanguart e os suecos do Peter Bjorn and John.
Em 2009, no sexto ano, as atrações principais foram o Beirut e a dupla Milton Nascimento e Lô Borges. A O Grito! saiu do Centro de Convenções dizendo ter visto “uma estrutura maior, mais organizada e diversa que o maior festival de Pernambuco até então, o Abril Pro Rock”.

Em 2010 veio o Dinosaur Jr., com shows no Teatro da UFPE nos dias 24 e 25 de setembro. O dinheiro andava curto. “Trabalhamos com R$ 500 mil esse ano, o que nos complicou”, disse Ana Garcia à O Grito!.

Em 2011, a oitava edição escalou os Racionais MC's. Foi a “atração mais ousada escolhida pelo Coquetel”, registrou um texto no site do festival: “público em êxtase, porta de vidro quebrada devido à empolgação dos fãs”. Treze anos depois, o documentário dos 20 anos guardaria a “delirante apresentação do Racionais MCs” entre os momentos marcantes.

Em 2012, na nona edição, Moraes Moreira tocou “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, nos 40 anos do disco, e o Blonde Redhead veio dos Estados Unidos. Em 2013, o festival completou dez edições no Teatro da UFPE, com Rodrigo Amarante, Clarice Falcão, Metá Metá e Perfume Genius, e encerramento marcado em São Paulo, no Cine Joia.
Ao ar livre, e com o Brasil na rota (2014–2019)
Em 2014, depois de dez edições em lugares fechados, o festival foi para o ar livre, na Coudelaria Souza Leão, na Várzea. A 11ª edição teve Karina Buhr cantando Secos e Molhados e os franceses do La Femme, que vinham ao país pela primeira vez. Em 2015, completando 12 edições, o cartaz trouxe Emicida e Ney Matogrosso com a banda Tono.

Em 2016, a 13ª edição reuniu 7 mil pessoas na Coudelaria, com Céu, Karol Conká e o BaianaSystem fechando a noite já de madrugada. Também teve fila longa e problema de estrutura, e a produção pediu desculpas publicamente.
O festival também viajou. Até 2016, já tinha feito edições especiais em Salvador, Fortaleza e Fernando de Noronha; naquele ano fez uma etapa em Belo Horizonte, onde a banda californiana Deerhoof tocou pela primeira vez no Brasil. Em 2018, a rota já incluía Belo Jardim, e São Paulo entrou na rota em 30 de novembro, na Água Branca — “o nosso primeiro passo na cidade”, disse Ana Garcia.
Uma das histórias mais bonitas é a do Boogarins. Recife foi a primeira capital brasileira em que a banda goiana tocou fora de Goiás, justamente numa edição do Coquetel Molotov. A banda voltou muitas vezes: tocou com Céu em 2021, fez uma releitura do Clube da Esquina nos 20 anos e está no cartaz de 2026.

De 2017 a 2019, o festival morou no Caxangá Golf & Country Club. Em 2017, a 14ª edição juntou Arnaldo Baptista, Linn da Quebrada e os americanos do DIIV. Em 2018, nos 15 anos, foram 25 atrações e todos os ingressos esgotados, com Duda Beat, Luedji Luna e Djonga. A conta é que não fechava fácil: Ana Garcia disse à Folha de Pernambuco que o evento “facilmente custa 1 milhão” de reais. “A gente não capta nem 500”, completou. Em 2019, a 16ª edição trouxe a lenda Lia de Itamaracá, Black Alien e Liniker e os Caramelows.

Pandemia, Olinda e a volta para casa (2020–2023)
A pandemia não parou o festival. A 17ª edição foi online, de 11 a 23 de janeiro de 2021 — “nem a pandemia foi capaz de interromper as atividades do evento”, resumiu a Mídia NINJA. Em novembro de 2021, a 18ª edição voltou ao presencial no Centro de Convenções, no Teatro Guararapes, em Olinda: foi o primeiro festival de música de Pernambuco a acontecer presencialmente em quase dois anos. Boogarins com Céu, Lia de Itamaracá e Mateus Aleluia abriram o reencontro.
Em 2022, a 19ª edição voltou “para o lugar onde tudo começou: o Campus da UFPE”. “Voltar para a nossa casa na UFPE será emocionante”, disse Ana Garcia. Teve Letrux com participação de Supla, Marcos Valle e as gêmeas Tasha & Tracie.
Os 20 anos foram comemorados em 21 de outubro de 2023, com 35 atrações em 12 horas e maioria feminina no line-up (60%). Marcelo D2 tocou pela primeira vez no festival. “Esta foi uma edição realmente histórica”, disse Ana Garcia. Em abril de 2024, o filme CoquetelMolotov.doc, dirigido por UHGO, teve pré-estreia gratuita no Teatro do Parque.
Madrugada, brega e pop: o festival de agora (2024–2025)
Em 2024, a 21ª edição teve mais de 70% de atrações femininas e Pabllo Vittar como estrela. A noite misturou Tati Quebra Barraco, o trio do pianista Amaro Freitas e Nega do Babado, e os shows foram até as seis da manhã. Dias antes, a Câmara Municipal do Recife fez uma sessão solene pelos 21 anos do festival.

Em 2025, a 22ª edição, na conta do próprio festival — a cobertura da O Grito! registrou 24ª —, esgotou os ingressos. Urias fez um show catártico, a francesa Zaho de Sagazan conquistou a plateia e Gaby Amarantos fechou ao amanhecer com o disco “Rock Doido”. Com Nega do Babado no palco, Gaby selou o que a revista chamou de “tratado de paz” entre o brega do Recife e o de Belém. Não foi fácil chegar até ali: “Essa tem sido uma das edições mais desafiadoras do Coquetel Molotov”, disse Ana Garcia antes do festival.

O que faz o Coquetel Molotov diferente
Primeiro, a curadoria. “O Coquetel sempre foi um lugar de descoberta, de apostar em artistas antes de eles estarem em todos os lugares”, diz Ana Garcia. A história confirma: foi no festival que Marcelo Camelo estreou o show solo no Brasil, que o Boogarins tocou pela primeira vez numa capital fora de Goiás e que o Deerhoof fez seu primeiro show no país. O documentário dos 20 anos lembra também a primeira vinda de Emicida ao Recife e o show da “então pouco conhecida Karol Conká numa pequena sala do festival” — ela está de volta em 2026.
Depois, a mistura de gerações. Pelo mesmo festival passaram Milton Nascimento e Lô Borges, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Arnaldo Baptista e Lia de Itamaracá — e, nas mesmas edições, bandas estreantes como Tagore.
E as escolhas fora do palco. O festival é liderado por mulheres desde a criação, em 2004, e foi o primeiro do Brasil a entrar na Keychange, iniciativa por igualdade de gênero nos line-ups. Tem o Selo de Empresa que Valoriza a Diversidade, da OAB-PE, e pessoas trans e pessoas com deficiência entram de graça. Em 2023, recolheu 700 quilos de recicláveis; em 2024, adotou o protocolo Lixo Zero.
E o tamanho que isso ganhou. O festival emprega mais de 500 pessoas a cada edição, e em 2025 32% do público veio de fora de Pernambuco. Em 15 de outubro de 2025, a Assembleia Legislativa aprovou o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco, proposto pela deputada Dani Portela.
O programa de rádio que deu nome ao festival continua no ar: Coquetel Molotov, na Universitária FM 99,9, aos sábados, às 14h, com Jarmeson de Lima. As entrevistas viram podcast, e a mais recente saiu em 8 de setembro de 2026.
A 23ª edição, em 2026: o que já se sabe — e o que ainda não
A 23ª edição acontece em 28 de novembro de 2026, no campus da UFPE, na Avenida Prof. Moraes Rego, 1235, Cidade Universitária. Os portões abrem às 15h e os shows vão das 16h às 5h, em três palcos: Coquetel Molotov, Concha e Kamikaze, este com curadoria da IDLIBRA e dedicado à música eletrônica.
O line-up completo tem mais de 25 atrações. Fernanda Abreu leva ao Recife a turnê “Da Lata 30 Anos”, e o Cidadão Instigado celebra três décadas de trajetória. Voltam conhecidos da casa, como Boogarins, Karol Conká e N.I.N.A., e estão no cartaz também Azymuth, o DJ americano MikeQ, da cena ballroom, e o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas de Olinda. Os ingressos começam em R$ 95, na Shotgun e na Casa Moinho.

O que ainda não se sabe, até 1º de outubro de 2026: o anúncio do line-up completo, em 23 de setembro, não trouxe o horário de cada show, então ainda não dá para dizer quem toca a que horas. E o título de patrimônio: quando a Alepe o aprovou, ele ainda dependia da assinatura da governadora Raquel Lyra, e a sanção não foi localizada até esta data.
Edição por edição
| Edição | Quando | Onde | Quem passou |
|---|---|---|---|
| 1ª | maio de 2004 | Teatro da UFPE | Teenage Fanclub (Escócia), Hell on Wheels (Suécia) |
| — | 2005 | Teatro da UFPE e Sala Cine UFPE | Mombojó, Dungen (Suécia), Hurtmold, Rádio de Outono |
| — | 2006 | — | CocoRosie |
| — | 2007 | — | Nouvelle Vague |
| 5ª | 19 e 20 de setembro de 2008 | Centro de Convenções da UFPE | Marcelo Camelo (estreia do show solo), Mallu Magalhães, Vanguart, Peter Bjorn and John |
| 6ª | 2009 | Centro de Convenções | Beirut; Milton Nascimento e Lô Borges |
| — | 24 e 25 de setembro de 2010 | Teatro da UFPE | Dinosaur Jr., Apanhador Só, Rômulo Fróes, Zé Cafofinho e Suas Correntes |
| 8ª | 14 e 15 de outubro de 2011 | Teatro da UFPE e Centro de Convenções | Racionais MC's, HEALTH, Guillemots, China |
| 9ª | 21 e 22 de setembro de 2012 | Centro de Convenções da UFPE | Moraes Moreira canta “Acabou Chorare”, Blonde Redhead, Siba, Thiago Pethit |
| 10ª | 18 e 19 de outubro de 2013 | Teatro da UFPE (encerramento no Cine Joia, em São Paulo) | Rodrigo Amarante, Clarice Falcão, Metá Metá, Perfume Genius |
| 11ª | 11 de outubro de 2014 | Coudelaria Souza Leão, Várzea (a primeira ao ar livre) | La Femme, Russian Red, Karina Buhr canta Secos e Molhados, Jaloo |
| 12ª | 31 de outubro de 2015 | Coudelaria Souza Leão | Emicida, Ney Matogrosso com Tono, Cidadão Instigado |
| 13ª | 22 de outubro de 2016 | Coudelaria Souza Leão | Céu, Karol Conká, BaianaSystem (7 mil pessoas) |
| 14ª | 21 de outubro de 2017 | Caxangá Golf & Country Club | Arnaldo Baptista, Linn da Quebrada, DIIV, Hinds |
| 15 anos | 17 de novembro de 2018 | Caxangá Golf & Country Club | Duda Beat, Luedji Luna, Djonga (ingressos esgotados) |
| 16ª | 16 de novembro de 2019 | Caxangá Golf & Country Club | Lia de Itamaracá, Black Alien, Liniker e os Caramelows, Sevdaliza |
| 17ª | 11 a 23 de janeiro de 2021 | online | edição online, durante a pandemia |
| 18ª | novembro de 2021 | Centro de Convenções / Teatro Guararapes, Olinda | Boogarins com Céu, Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Marina Sena |
| 19ª | 19 de novembro de 2022 | Campus da UFPE | Letrux com Supla, Marcos Valle, Tasha & Tracie, MC Carol |
| 20ª | 21 de outubro de 2023 | Campus da UFPE | Marcelo D2, Luedji Luna, FBC, Boogarins (35 atrações) |
| 21ª | 7 de dezembro de 2024 | Campus da UFPE | Pabllo Vittar, Tati Quebra Barraco, Amaro Freitas, Céu |
| 22ª | 6 de dezembro de 2025 | Campus da UFPE | Urias, Gaby Amarantos, Don L, Zaho de Sagazan (ingressos esgotados) |
| 23ª | 28 de novembro de 2026 | Campus da UFPE | Fernanda Abreu, Cidadão Instigado, Azymuth, Boogarins, Karol Conká |
Os traços na coluna da edição marcam os anos em que as notícias não dizem o número da edição; a de 2018 foi anunciada pelos seus 15 anos.
Perguntas frequentes
Quando começou o Coquetel Molotov?
Quem criou o Coquetel Molotov?
Onde acontece o Coquetel Molotov?
Quando é o Coquetel Molotov 2026?
Quem já tocou no Coquetel Molotov?
A programação da 23ª edição está no perfil do Coquetel Molotov no TocaOnde.
Antes de fechar
Veja quem está tocando de verdade.
A agenda é pública, e cada show aponta a banda e a casa. Dá pra ouvir e ver o estilo antes de puxar conversa.
