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Memória da cena

A história da Batekoo: da festa de despedida em Salvador ao festival de São Paulo

A Batekoo nasceu em Salvador, em dezembro de 2014, como a festa de despedida de um DJ que se mudava para São Paulo. Era para ser uma noite. Virou festa de cultura negra e LGBTQIA+ em várias capitais do país, levou um trio elétrico ao carnaval paulista e, desde 2022, tem festival próprio, que estreou para 12 mil pessoas na Neo Química Arena. Teve a edição de 2024 adiada por falta de patrocínio, voltou com ingressos esgotados e marcou a próxima edição para 14 de novembro de 2026.

Multidão à noite diante de um palco iluminado por fachos azuis, com o letreiro BATEKOO Festival, dois telões e prédios ao fundo
O palco do BATEKOO Festival, em São Paulo, em foto de divulgação. Foto: Mangabeira / divulgação BATEKOO Festival, via Bantumen

Em resumo

  • Maurício Sacramento e Wesley Miranda criaram a Batekoo em Salvador, em dezembro de 2014, numa festa de despedida de Wesley, que se mudava para São Paulo.

  • A festa nasceu no Nordeste de Amaralina e entrou pela primeira vez na programação oficial do Carnaval de Salvador em 2023, com o After Batekoo na Praça Castro Alves.

  • Em 2018, a Batekoo estreou um trio elétrico no carnaval de São Paulo, no centro da cidade.

  • O primeiro BATEKOO Festival foi em 10 de dezembro de 2022, na Neo Química Arena, em São Paulo, e recebeu 12 mil pessoas.

  • Em 7 de outubro de 2023, no Memorial da América Latina, o BATEKOO Festival teve Liniker como headliner de um festival pela primeira vez.

  • A edição de 2024, que aconteceria em 23 de novembro, em São Paulo, foi adiada por falta de patrocínio.

  • A edição de 2025, em 15 de novembro, no Sonora Garden, no Canindé, teve os ingressos esgotados.

  • O BATEKOO Festival 2026 está marcado para 14 de novembro, em São Paulo, das 18h às 6h, com o tema da Améfricanidade.

Revisado em 3 de outubro de 2026.

Uma despedida no Nordeste de Amaralina (2014)

Tudo começou com uma mudança. Em dezembro de 2014, o DJ e produtor Wesley Miranda estava de partida para São Paulo e chamou o amigo Maurício Sacramento para ajudar a produzir a festa de despedida, conta a Revista Híbrida. Era também a festa de aniversário dele, registra o portal Salvador Capital Afro. A estreia foi no Nordeste de Amaralina, e os dois eram jovens da periferia de Salvador.

“A Batekoo começou como uma tentativa despretensiosa de fazer uma festa que trouxesse as referências negras e o acolhimento ao público LGBT negro, às mulheres negras e às minorias em geral”, contou Sacramento em 2019. “Depois da primeira edição, percebemos a sua potência.” A festa não parou mais. A entrada custava R$ 10 em lugar fechado e era de graça na rua, e a equipe inteira era negra, dos organizadores aos atendentes.

O nome não esconde a intenção. Segundo os fundadores, ele vem dos ritmos feitos para “bater o cu no chão”. E a pista só toca música negra: hip-hop, rap, funk, R&B, trap, twerk, kuduro, dancehall e pop.

Salvador é a capital com a maior população negra do país, mas a noite da cidade não era feita para ela. “Antes da Batekoo, eu frequentava a cena soteropolitana e os espaços eram brancos e elitistas, com histórias de racismo e preterimento da cultura negra”, disse Sacramento. A festa nasceu como resposta.

Mulheres e homens vestidos de branco, com turbantes e saias rodadas, caminham por uma rua de bairro em Salvador
A Caminhada do Povo de Santo no Nordeste de Amaralina, o bairro de Salvador onde a Batekoo estreou (foto de 2019). Foto: Deputado Rosemberg · Wikimedia Commons · Domínio público

Uma festa em cada capital (2015–2019)

Depois de sete meses em Salvador, a Batekoo começou a viajar. Em 2019, já tinha edições mensais no Rio, em São Paulo, em Fortaleza, no Recife e em Belo Horizonte, cada cidade com o seu produtor. Sacramento fazia uma conta que dizia muito: 70% do público eram mulheres negras.

O carnaval veio junto. No Rio, a festa fez dois anos de edições temáticas, e a Híbrida encontrou o Carnakoo numa esquina da Zona Portuária, com Beyoncé e Rihanna misturadas ao funk. Em São Paulo, a Batekoo estreou um trio elétrico em 2018, no centro da cidade, e reuniu cerca de 40 mil pessoas.

Trio elétrico vermelho com o nome BATEKOO cercado por uma multidão numa rua arborizada do centro de São Paulo
O trio da Batekoo na estreia no carnaval de São Paulo. Foto: Lucas Hirai / Batekoo, via Revista Híbrida
Uma dançarina de maiô lilás, ajoelhada no teto de um trio, olha para uma avenida tomada pelo público
Do alto do trio, a avenida tomada pelo bloco (foto publicada em 2019). Foto: Lucas Hirai / Batekoo, via Revista Híbrida

Em janeiro de 2019, a Red Bull TV lançou o documentário “Inspire the Night: Batekoo”. O filme apresenta seis jovens como criadores da festa, Wesley, Maurício, Artur, Kiara, Juju e Renata, e ouve Karol Conká, Rincon Sapiência e MC Soffia. A essa altura, a Batekoo já tinha parceria com a Nike, e parte da produção paulista assinou a coreografia de “Farofei”, de Karol Conká.

No mesmo ano, a festa saiu do país. A revista britânica Dazed anunciava a primeira vez da Batekoo no exterior, com sets no Afropunk Brooklyn e no Summerstage, em Nova York. A lista cresceu: o portal Salvador Capital Afro soma o Brazil Summerfest, o Afropunk de Joanesburgo e o Red Bull Music Festival, no Chile. Vieram também um selo, a BATEKOO Records, e um projeto de formação, a Escola B.

E já havia um plano maior. Em abril de 2019, a Batekoo preparava o primeiro festival, com apoio da Natura Musical, voltado à cultura negra, LGBT+ e periférica. Ele só aconteceria em dezembro de 2022.

Um estádio com pista preta (2022)

O primeiro BATEKOO Festival foi num sábado, 10 de dezembro de 2022, a partir das 18h, na Neo Química Arena, o estádio do Corinthians, em Itaquera. O lema era um recado: “A gente não quer ser assistido, a gente quer se assistir”. Vieram 12 mil pessoas.

A produção pensou em quem chega de metrô e volta de manhã. O lugar ficava perto da estação, o festival ia do fim da tarde ao início da manhã, e a cerveja custava R$ 10, ou três por R$ 25, contou o Scream & Yell, que viu “preços superacessíveis” para um evento daquele porte em São Paulo.

Estádio de fachada branca visto de uma passarela elevada, com gramado e trilhos em primeiro plano
A Neo Química Arena vista da estação Corinthians-Itaquera: o primeiro festival foi ali, perto do metrô (foto de 2018). Foto: Juan Benjamin Samaniego · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Os momentos se empilharam, conta o mesmo balanço. O Fat Family, hoje o trio das irmãs Simone, Suzete e Kátia Cipriano, chamou ao palco Talita Cipriano, filha de Deise, a irmã que morreu em 2019. No palco menor, Seu Osvaldo, considerado o primeiro DJ do Brasil, tocou Jorge Ben e Cassiano para uma pista emocionada. E a rapper Monna Brutal recusou uma base vocal no meio do show: “aqui não, eu faço tudo ao vivo”.

Três cantoras de roupa preta no palco, diante de um telão com chamas desenhadas
O Fat Family no primeiro BATEKOO Festival, em 2022. Foto: Batekoo, via Scream & Yell
Senhor de cabelo branco, fones de ouvido e camisa estampada mexe nos toca-discos de uma cabine de DJ
Seu Osvaldo, considerado o primeiro DJ do Brasil, na mesma noite. Foto: Batekoo, via Scream & Yell

A madrugada tinha mais. Ludmilla emendou os hits do funk com o pagode do Numanice e recebeu Gloria Groove de surpresa. Por volta das 3h, passistas e a bateria da Vai-Vai atravessaram o público. E Deize Tigrona cantou as músicas de “Foi Eu Que Fiz”, disco lançado pela própria BATEKOO Records, com as bases do DJ Mirands, que o Scream & Yell apresenta como um dos cofundadores da festa. O cartaz ainda tinha Karol Conká, o grupo baiano ÀTTØØXXÁA e O Kannalha, e também Afro B, segundo o festival.

Ludmilla, de calça de couro preta e top, aponta para o alto no palco, com bailarinas atrás e fumaça verde
Ludmilla, que recebeu Gloria Groove de surpresa no palco. Foto: Batekoo, via Scream & Yell
Passista com adereço de penas e brilho na cabeça sorri no meio do público, à noite
Passistas e a bateria da Vai-Vai cruzaram o público de madrugada. Foto: Batekoo, via Scream & Yell

Do carnaval em casa ao Big Bang dos Pretos (2023)

Em fevereiro de 2023, a festa voltou para casa por cima. Pela primeira vez, a Batekoo entrou na programação oficial do Carnaval de Salvador, com o After Batekoo na Praça Castro Alves, de 17 a 21 de fevereiro, da meia-noite às 3h. “Tem oito anos que a gente despontou e nunca tivemos um Carnaval na programação oficial da cidade”, disse Sacramento. “O próprio Castro Alves é um poeta preto abolicionista.”

Entre as atrações estava o AfroBapho, coletivo de jovens negros LGBT+ de Salvador que, segundo a Wikipédia, criou a própria festa inspirado na Batekoo e no documentário “Paris Is Burning”. A festa de 2014 já tinha filhos.

Nove jovens negros com roupas esportivas pretas e brancas posam lado a lado num galpão de paredes grafitadas
A turma da Batekoo na divulgação da estreia no Carnaval de Salvador, em 2023. Foto: divulgação, via Salvador da Bahia

Em 2 de setembro, a Batekoo entrou na programação do The Town, no Autódromo de Interlagos: um set marcado para as 23h30 com FreshPrincedaBahia, Juju ZL, Kiara e Mirands. FreshPrincedaBahia é o nome artístico de Maurício Sacramento, lembra a prefeitura de Salvador.

A segunda edição do festival veio em 7 de outubro de 2023, com ingresso no terceiro lote a R$ 160 a inteira e R$ 110 a entrada social, e um tema novo: “O Big Bang dos Pretos”, uma alusão ao quilombo. Foi no Memorial da América Latina, para cerca de 10 mil pessoas, e nem a chuva desanimou o público.

Quem fechou a noite foi Liniker, pela primeira vez como headliner de um festival. “Muito obrigada, Batekoo, por me perceberem, me valorizarem, por me acolherem”, ela declarou. Antes dela passaram o Grupo Revelação, Gaby Amarantos, Tasha & Tracie com Kyan e Mu540, A Dama, Sampa Crew, Gabriel do Borel e a dupla de brega funk Shevchenko e Elloco, que se apresentou poucos meses antes da morte de Elloco.

Palco com o letreiro de LED O Big Bang dos Pretos, cantores e DJs sob chuva fina e o público de braços erguidos
O palco de “O Big Bang dos Pretos”, a edição de 2023, no Memorial da América Latina. Foto: divulgação, via Alma Preta

Dez anos e um festival adiado (2024)

Em 2024, a Batekoo fazia dez anos e anunciou a terceira edição do festival para 23 de novembro, no Estádio do Canindé. O cartaz era de festa grande: BK’ com o show “Ícarus”, Karol Conká revisitando o disco “Batuk Freak”, de 2013, Alaíde Costa aos 88 anos, Psirico, Jeeh FDC e a angolana Titica, ícone do kuduro. O anúncio lembrava que as duas primeiras edições tinham reunido mais de 22 mil pessoas.

Karol Conká canta de jaqueta e saia estampada diante de um telão rosa, com músicos ao fundo
Karol Conká em 2013, o ano de “Batuk Freak”, o disco que ela ia revisitar no festival de 2024 (foto do festival Latinidades). Foto: Fora do Eixo · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Em 31 de outubro, a organização adiou a edição por falta de patrocínio. “É muito bom falar de vitórias, mas também é muito importante falar sobre derrotas”, disse Sacramento. “Se entregamos o mesmo (ou mais) em relevância, números e alcance, por que os festivais propostos por e para a comunidade negra do Brasil ainda estão sendo esquecidos nas decisões de grandes empresas em onde investir?” O sócio e curador Artur Santoro contou que 90% dos contratos de marca fechados pela Batekoo tinham sido puxados pelas poucas pessoas negras dentro das empresas.

Adiamento ou cancelamento? Depende de quem conta. A Rolling Stone usa as duas palavras na mesma notícia, e a Alma Preta fala em adiamento. Já o anúncio da edição seguinte fala em cancelamento. O festival de 2024 não aconteceu.

A volta, com ingressos esgotados (2025)

A Batekoo voltou em 15 de novembro de 2025, no Sonora Garden, na Rua Comendador Nestor Pereira, 33, no Canindé, o mesmo endereço do estádio anunciado no ano anterior. A programação ia das 18h às 6h, e a edição herdou o número de terceira. “Reconstruir o Festival da BATEKOO após o cancelamento da edição de 2024 é um processo desafiador”, disse Sacramento. O apoio veio de marcas como o Grupo L’Oréal e a Niely Gold e de parceiros franceses, como a Embaixada da França e o Instituto Francês.

Os ingressos esgotaram antes da festa. O cartaz juntou BK’, Urias, Duquesa, O Kannalha, Rom Santana, Carlos do Complexo e Mu540 a nomes da França, como Keiona e Scorpioqveen. “Fazer um festival negro não é pensar um recorte: é pensar Brasil”, resumiu Artur Santoro.

O festival de 2026: o que já se sabe — e o que ainda não

A próxima edição está marcada para sábado, 14 de novembro de 2026, em São Paulo, das 18h às 6h. A página de ingressos promete 12 horas, dois palcos e mais de 20 atrações. A venda abriu em 7 de abril, antes do anúncio das atrações. O anúncio falava em ingresso a partir de R$ 65, mas em 2 de outubro os lotes de meia-entrada de R$ 55 a R$ 75 já apareciam esgotados na Shotgun. A classificação é 18 anos.

O tema é a Améfricanidade, conceito da intelectual Lélia Gonzalez (1935–1994) para pensar as conexões entre os povos negros das Américas. Daí vem a atração de fora: a cantora D’Leesa, de Atlanta, faz no festival o primeiro show dela no Brasil. Em 28 de novembro, ela toca no No Ar Coquetel Molotov, no Recife.

A outra novidade é o pagode. O Pixote, grupo formado em São Paulo em 1993, toca pela primeira vez no festival. “É um nome que tento trazer para a curadoria desde o nosso primeiro festival, em 2022”, disse Sacramento. “Cresci nas periferias de Salvador, e o Pixote sempre esteve muito presente no nosso cotidiano.”

O vocalista do Pixote, de viseira e camiseta branca, canta ao microfone com o braço estendido
O Pixote, que estreia no BATEKOO Festival em 2026 (foto de 2012). Foto: Prefeitura Municipal de Itanhaém · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Até agora, o cartaz tem D’Leesa, Pixote, Aparelhagem Crocodilo, Vita’s House, Bia Soull, Majis, Paulete Lindacelva, Clementaum, RD da DZ7, DJ Wuk, MikeQ e Samba do Cruz.

O que ainda não se sabe, até 2 de outubro de 2026: o local. A página de ingressos diz só “São Paulo - SP”. Falta também o resto do cartaz, já que a promessa é de mais de 20 atrações, e as listas e as políticas de acessibilidade e inclusão, que “serão divulgadas em breve”. Nenhum anúncio diz qual é o número desta edição, e o público de 2025 não foi divulgado.

O BATEKOO Festival, edição por edição
EdiçãoDataOndeDestaquesPúblico
1ª10/12/2022Neo Química Arena, ItaqueraLudmilla, Fat Family, Karol Conká, ÀTTØØXXÁA, Urias, Deize Tigrona, Seu Osvaldo12 mil
2ª7/10/2023Memorial da América LatinaLiniker, Grupo Revelação, Gaby Amarantos, Tasha & Tracie, Shevchenko e Ellococerca de 10 mil
anunciada como 3ª23/11/2024Estádio do CanindéBK’, Karol Conká, Alaíde Costa, Psirico, Titica; não aconteceu, por falta de patrocínio—
3ª15/11/2025Sonora Garden, CanindéBK’, Urias, Duquesa, O Kannalha, Keiona (França)esgotado; número não divulgado
sem número anunciado14/11/2026São Paulo; local a anunciarPixote, D’Leesa (EUA), MikeQ, Aparelhagem Crocodilo—

A conta das edições tem um nó. A de 2024 foi anunciada como a terceira e não aconteceu. A de 2025 herdou o número. E a festa que deu origem a tudo segue rodando à parte, em capitais como Rio, São Paulo e Brasília.

Perguntas frequentes

Quem criou a Batekoo?

Os DJs e produtores Maurício Sacramento e Wesley Miranda, em dezembro de 2014, em Salvador. O documentário da Red Bull TV, de 2019, apresenta seis criadores: Wesley, Maurício, Artur, Kiara, Juju e Renata. Hoje, Sacramento é CEO, diretor criativo e curador, e Artur Santoro é sócio e curador do festival.

De onde vem o nome Batekoo?

Dos ritmos para “bater o cu no chão”, segundo os fundadores. A pista só toca música negra, do funk ao kuduro.

A Batekoo é festa ou festival?

As duas coisas. A festa existe desde 2014 e roda por várias capitais. O BATEKOO Festival é o evento grande, que acontece em São Paulo desde dezembro de 2022.

Quando e onde é o BATEKOO Festival 2026?

Em 14 de novembro de 2026, das 18h às 6h, em São Paulo. Até 2 de outubro de 2026, o local ainda não tinha sido divulgado. A venda é pela Shotgun, e a classificação é 18 anos.

A agenda da Batekoo e as novidades do festival de 2026 estão no perfil do festival no TocaOnde.

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